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Aprender depois dos 60: a alegria de ser iniciante outra vez

Homem de cabelos grisalhos modela uma tigela de argila com a orientação de uma professora em uma oficina de cerâmica.
Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial.

Uma história sobre o receio de errar, a descoberta de novos interesses e o prazer de fazer algo sem precisar saber de antemão.

A primeira peça que Paulo fez com argila ficou torta.

Ele havia imaginado uma tigela pequena, dessas que servem para guardar chaves perto da porta. Mas um lado ficou mais alto que o outro, e uma marca de dedo atravessava o fundo.

Olhou para a mesa ao lado. Uma colega alisava a borda da própria peça com uma tranquilidade que lhe pareceu impossível.

Paulo cobriu sua tentativa com a mão.

Aos 67 anos, depois de uma vida consertando coisas para os outros, estava pouco acostumado a não saber o que fazer.

Paulo é um personagem fictício. Seu desconforto, porém, pode acompanhar quem decide aprender alguma coisa depois de muitos anos ocupando o lugar de quem ensina, resolve ou já conhece o caminho.

O interesse que quase virou desculpa

Durante meses, Paulo passara diante de um centro cultural do bairro sem prestar muita atenção.

Até que viu, pela janela, uma mesa coberta de pequenas esculturas. Parou para olhar uma casa de argila. Tinha telhado vermelho, duas janelas e um cachorro deitado na entrada.

Lembrou-se do quintal onde crescera.

Na recepção, perguntou se as peças estavam à venda. A funcionária explicou que eram trabalhos de uma oficina e entregou um papel com os horários.

— Ainda temos uma vaga na turma de quinta-feira.

Paulo dobrou o papel e colocou no bolso.

Em casa, deixou-o perto do telefone. Quando a filha perguntou se ele pretendia participar, respondeu:

— Acho bonito. Mas nunca fiz isso.

Ela olhou o horário.

— Você tem algum compromisso na quinta?

Não tinha.

Mesmo assim, levou três dias para fazer a inscrição.

Voltar a fazer perguntas

Na primeira aula, Paulo escolheu uma cadeira perto da saída.

Ouviu a explicação, pegou a argila e tentou acompanhar os movimentos da professora. Quando apertou demais, a borda cedeu.

Tentou consertar depressa. Piorou.

Sua vontade foi dizer que aquilo não era para ele.

A professora se aproximou e perguntou o que ele pretendia fazer.

— Uma tigela. Pelo menos era a ideia.

Ela puxou uma cadeira e mostrou o movimento novamente. Paulo observou as mãos dela.

— Pode repetir mais devagar?

A pergunta saiu baixa.

Na segunda vez, conseguiu perceber onde estava colocando força demais.

Ainda precisou de ajuda outras vezes naquela tarde. Ao final, tinha as mangas sujas e uma peça que mal lembrava o que havia planejado.

Antes de sair, perguntou como deveria guardá-la até a próxima aula.

O peso de já ter sido bom em tanta coisa

Paulo trabalhara por décadas com manutenção.

Conhecia ferramentas pelo peso, identificava problemas pelo barulho e gostava de ouvir alguém dizer: “Chama o Paulo que ele resolve”.

Na oficina, ninguém esperava que ele resolvesse nada.

Essa liberdade demorou a ficar confortável.

Quando não entendia uma orientação, olhava em volta antes de perguntar. Se alguém terminava primeiro, acelerava os próprios movimentos.

Uma tarde, a colega ao lado percebeu sua pressa.

— Estou há quase dois anos nessa turma — contou.

Paulo olhou para a peça dela.

Ele estivera comparando sua terceira aula com dois anos de prática.

Naquela noite, lembrou-se de quantas vezes havia ensinado um ajudante a usar uma ferramenta. Nunca esperara que o rapaz acertasse tudo de primeira.

Com a própria aprendizagem, estava sendo bem menos paciente.

Nem toda semana cabe do mesmo jeito

Depois de algumas aulas, Paulo precisou faltar.

Um exame coincidiu com o horário da oficina. Na semana seguinte, ficou com o neto. Quando percebeu, já pensava em abandonar o curso para não voltar atrasado.

Telefonou para o centro cultural e explicou a situação.

Havia perdido uma etapa de acabamento, mas poderia retomá-la com orientação. Combinou o retorno.

Também fez as contas antes de comprar materiais. Preferiu continuar usando os recursos disponíveis nas aulas e deixar as ferramentas próprias para depois.

Nem todo interesse cabe imediatamente no tempo, no orçamento ou nas condições de cada pessoa. Às vezes, é preciso procurar uma atividade mais perto de casa, um horário possível ou alguém com quem dividir o percurso.

Para Paulo, continuar significou conversar sobre suas dificuldades e reorganizar algumas quintas-feiras.

Fazer alguma coisa só porque dá vontade

Certo dia, o neto perguntou quanto ele ganharia vendendo as peças.

Paulo riu.

Não havia pensado em vender.

Gostava de escolher uma forma, trabalhar nela e descobrir o resultado. Gostava das conversas durante a aula e de voltar para casa reparando em objetos que antes passavam despercebidos.

Começou a observar a alça das xícaras, o desenho dos vasos e as marcas deixadas por outras mãos.

Na oficina, decidiu fazer uma pequena casa.

Demorou semanas. Uma janela ficou estreita, e o telhado precisou ser refeito. Quando terminou, acrescentou um cachorro deitado na entrada.

Colocou a peça na estante da sala.

O que você gostaria de experimentar?

A tigela da primeira aula ficou perto da porta.

Paulo passou a deixar as chaves nela, como havia imaginado. A borda continuava torta, e a marca de dedo permanecia no fundo.

Quando uma visita perguntou quem a tinha feito, ele respondeu sem esconder a peça:

— Fui eu, quando comecei.

Na quinta-feira seguinte, chegou à oficina com uma ideia nova. Queria fazer um vaso mais alto, mas ainda não sabia como sustentar as paredes.

Sentou-se, preparou a mesa e chamou a professora.

Aprender depois dos 60 pode começar assim: com uma curiosidade, uma tentativa e a disposição de pedir ajuda. Pode acontecer numa aula, numa receita compartilhada, num instrumento esquecido ou numa função do celular que alguém se oferece para explicar.

E você: o que gostaria de aprender, mesmo começando do zero? Conte nos comentários.

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